Assembleia de Freguesia de Pontével
25 de Abril de 2011

Quando frequentei a escola primária aprendi a história do dia 25 de Abril de 1974 e a sua importância para o nosso país, assim como, o significado da palavra ditadura. E cresci com aquele sentimento de que essa data foi um dos marcos mais importantes da nossa História. O 25 de Abril devolveu aos portugueses a liberdade de opinião e de expressão. Foi o fim da censura e o início de um período de direitos adquiridos: direito à educação, à saúde, ao trabalho ou à habitação.

Acredito e respeito acima de tudo a força da Natureza. Acredito que tudo nela tende para um equilíbrio, e hoje, com trinta anos, olho para o 25 de Abril como esse equilíbrio resultante de um de desequilíbrio que levou a uma ruptura de um regime e ao nascimento de um outro cuja palavra-chave foi liberdade.

E é para esta palavra que dirijo a minha atenção. No pós 25 de Abril a democracia ganhou força ea liberdade foi-se acentuando ao longo dos últimos anos. Hoje, dia 25 de Abril de 2011 sinto que os valores originais da liberdade de Abril de 1974 perderam força e que, de certa forma, se tornaram num instrumento para atingir objectivos que transcendem a liberdade humana.

Em nome da liberdade, uma geração cresceu e prosperou com tudo a que teria direito. Mas muitos dessa geração foram além do que seria seu por direito e quiseram mais e mais.
Em nome da liberdade, os dirigentes políticos eleitos democraticamente tomaram decisões pelo povo que o elegeu. Mas muitos desses políticos foram além do poder que lhes foi concedido, e, em tempo de prosperidade, não existiu qualquer reflexão sobre uma possível necessidade de poupança para fazer face aos momentos mais difíceis do país.
Em nome da liberdade, grande parte do povo português aprendeu a viver num certo comodismo colado ao Estado e aos direitos daí advindos.
Em nome da liberdade, gastos supérfluos germinaram com uma força assustadora e desengane-se quem considerar que a culpa é apenas dos políticos, porque até a mais insignificante folha de papel desperdiçada por qualquer pessoa e paga por fundos públicos é um custo de todos.
Em nome da liberdade, foram esbanjados recursos e palavras como ter/possuir, ganharam força. Para viver uma vida considerada digna, ter isto ou aquilo passou a ser necessário, mesmo sendo supérfluo. Sendo curioso o facto de existirem países com níveis de desenvolvimento muito superiores a Portugal em que a sua população não possui alguns dos bens materiais dos quais os portugueses dependem.
Em nome da liberdade, os meios de comunicação social adquiriram um poder que transcende a própria liberdade e todos os limites foram esquecidos.
Em nome da liberdade, a corrupção proliferou.
Em nome da liberdade, excessos foram e são cometidos e por isso o nosso país paga agora um preço elevado.

Quais os limites da liberdade, questiono? Como diz uma frase conhecida “A minha liberdade termina quando começa a dos outros”. Será assim tão difícil percepcionar o limite entre a nossa liberdade e a dos outros?

Oiço frequentemente a forma como gerações anteriores à minha falam dos jovens de hoje. É um facto que existem comportamentos de uma geração mais nova que a minha que também me fazem alguma confusão. Mas coloco uma nova questão: Quem é que permitiu que essas gerações chegassem ao ponto a que chegaram? Quem é que possibilitou que essas gerações não pudessem sentir o que seria ter que lutar por algo nem aprender a dar valor às coisas, por terem tudo o que querem num piscar de olhos?

Passando à minha geração, sinto que Abril começa a ficar esquecido, pois muitos de nós somos instrumentos que o país está a utilizar para tentar limpar anos e anos de esbanjamento e de direitos adquiridos por outras gerações. Mais que direitos, herdámos deveres.

E não, não somos preguiçosos! Alguns talvez, mas não todos. Conheço pessoas preguiçosas em todas as gerações e rotular os jovens com essa expressão é no mínimo uma falta de respeito por aqueles que poderão ter a salvação do país nas mãos mas que não têm a força certa para fazer valer a sua palavra. A realidade do nosso país subdivide-se neste momento em duas partes: aqueles que adquiriram todos os direitos e que estão protegidos por uma lei que não permite retirá-los e os que trabalham em condições muitas vezes precárias, horas a fio, sem direito a um tostão a mais, sendo que, algum do desemprego do nosso país se deve em parte ao excesso de trabalho dessas pessoas. Podem elas ser livres e dizer não? Claro que podem. Mas terão que estar muito bem preparadas para sofrer as consequências profissionais de uma decisão dessas, que garantidamente não lhes será muito favorável. Ou aceitam o que têm nas condições que têm, ou correm o risco de ingressar nas longas listas do desemprego. E entre a escolha de ficar sem trabalho por tentar fazer valer os seus direitos ou manter o trabalho e o seu ordenado, é óbvio o final desta história. Actualmente olho para o meu país e constato que se tornou o “salve-se quem puder”.

O lado bom e digno da liberdade está a morrer e prevalece o seu lado mais obscuro. Estranha liberdade esta!

Todos procuram culpados para o estado do nosso país. Talvez se percebermos que todos temos a nossa parte de culpa e responsabilidade e que a falta de solidariedade entre gerações está a tornar o nosso país decadente, acabe por levar a um despertar colectivo. Talvez! Ainda consigo ter alguma esperança nisso, mesmo enfraquecendo de dia para dia.

E se é verdade a frase que as pessoas mais velhas de hoje dizem frequentemente: “Vocês não sabem o que é a vida. Difícil era no meu tempo em que tínhamos que dividir uma sardinha por três.” Eu respondo que têm alguma razão, mas que depois disso existiu uma geração que esbanjou sardinhas e que uma outra num futuro muito próximo, talvez a dos meus filhos, sobrinhos, netos, e quem sabe ainda a minha, não vai saber sequer o que é dividir uma sardinha por três, nem poderá fazer uma nova revolução, um novo Abril, para mais uma vez tentar restituir a parte boa e saudável da liberdade, para mais uma vez levar a um novo equilíbrio em sintonia com a Natureza. E o motivo é tão simples quanto este: poderão não existir nem sardinhas, nem cravos, nem Natureza…

Marta Campino

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